terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Martirio dos Irmãos Macabeus


CAPÍTULO 3
LEVAM AANTÍOCO A MÃE DOS MACABEUS COM OS FILHOS. ELE FICA
COMOVIDO POR VER ESSES SETE IRMÃOS TÃO BELOS E APRESENTÁVEIS. FAZ TUDO
O QUE PODE PARA PERSUADI-LOS A COMER A CARNE DE PORCO, E MANDA
TRAZER, PARA ASSUSTÁ-LOS, TODOS OS INSTRUMENTOS DE SUPLÍCIO, OS MAIS
CRUÉIS. MARAVILHOSA GENEROSIDADE COM QUE TODOS LHE RESPONDEM.

Mas, para melhor ainda demonstrar como é verdade, que a razão, cheia de piedade, domina as paixões, eu referirei também o exemplo de alguns jovens, que a razão fez vitoriosos sobre os maiores tormentos que o mais bárbaro furor poderia inventar.
Antíoco, levado pela cólera, por ver que a extrema constância de um ancião tinha vencido sua crueldade, ordenou que lhe trouxessem alguns outros judeus, com a deliberação de pô-los em liberdade, se eles comessem a carne de porco e de mandar matá-los, se se recusassem.
Apresentaram-lhe uma senhora venerável por seu nascimento e por sua ida¬de, com seus sete filhos, tão belos e tão formosos, que ele ficou surpreendido. Ordenou-lhe que se aproximasse e disse-lhe: "Não somente vejo, com prazer, mas admiro-me ainda, de que sejais em tão grande número e tão formosos. Assim, não somente eu vos aconselho, mas rogo-vos a não imitar a loucura da¬queles que se perdem por sua imprudência. Procurai ser da minha mesma opi¬nião e sentimentos e tornai-vos dignos de meu afeto. Eu não estou menos dis¬posto a fazer o bem aos que me obedecem, como resolvido a castigar severa¬mente os que ousam resistir às minhas ordens. Confiai na minha palavra e sentir-lhe-eis o efeito. Renunciai às superstições dos vossos antepassados, comei da carne que os gregos comem e conservai assim vossa vida e vossa juventude, por um sábio proceder. Do contrário, se não abandonardes àqueles dos quais eu me declarei inimigo, mandarei matar a todos, ainda que sinta compaixão da vossa idade e da vossa beleza. Não delibereis. Não há meio-termo entre obedecer-me ou perder a vida no meio dos tormentos".
Depois de ter assim falado, ele mandou trazer todos os instrumentos de suplí¬cios, os mais horríveis, a fim de incutir o terror no espírito daqueles sete irmãos, para que fizessem o que ele desejava. Vieram rodas, caldeiras, grelhas, unhas de ferro, tenazes, açoites e todos os instrumentos que a crueldade mais horrível pode inventar e que não se podia contemplar, sem estremecer. Então o príncipe disse-lhes: "Tremei, jovens! Se temeis fazer algo contrário à vossa religião, quem vos poderá censurar, pois a isso fostes obrigados?" Aqueles fiéis servidores de Deus, porém, em vez de se deixarem persuadir por essas palavras, e se acovarda¬rem pelo terror de tantos tormentos, não somente não se sentiram abatidos pelo temor, mas reafirmaram ainda mais a sua resolução de resistir; só assim vence¬ram a crueldade desse príncipe.
Se algum dentre os nossos tivesse perdido o ânimo, teria dito estas palavras aos outros: "Miseráveis que somos! Perdemos então o juízo? O rei nos pede e nos promete recompensas se fizermos o que ele nos ordena e em vez de obedecer-lhe, nós nos obstinamos por pensamentos vãos de generosidade, numa resistência que nos custará a vida, como castigo de nossa ousadia? É possível, meus irmãos, que tantos tormentos não nos assustem e não nos levem dessa loucura? Não teremos compaixão de nós mesmos, quando em nossa juventude, apenas começamos a gozar as doçuras da vida e não teremos também piedade da velhice de nossa mãe? Deus é muito bom, para nos perdoar o que o temor das ameaças do rei nos terá obrigado a fazer. Não sejamos, pois, os assassinos de nós mesmos, não mostremos por vaidade não temer tão horríveis sofrimentos, mas cedamos a uma necessidade inevitável. Pois que a lei não nos permite darmos a morte, para nos isentarmos dos maiores tormentos, que vantagem teremos de nos expormos a eles, quando nada a isso nos obriga, e o rei nos exorta a conservar a vida?"
Mas, embora esses jovens se vissem prestes a sofrer tais torturas, a razão reinava de tal modo sobre seus sentidos e dava-lhes tal desprezo pelo sofrimento, que bem longe estavam de pensar e de dizer algo de semelhante. Antíoco apenas os tinha exortado a comer daquela carne, de que se não podiam servir sem manchar a alma, e todos juntamente, como se tivessem uma só voz, animados pelo mesmo espírito, responderam-lhe: "É em vão que pretendeis nos persuadir a vos obede¬cer. Estamos resolvidos a morrer antes que violar as leis dadas por Moisés a nossos antepassados. Nós teríamos vergonha de ser descendentes deles se não as obser¬vássemos. Deixai, pois, de nos aconselhar a cometer tão grande crime; deixai de nos dar, sob pretexto de bondade, provas de vosso ódio; a morte nos parece muito mais suave do que essa cruel compaixão que nos quer salvar a vida à custa de nossa salvação. Julgais assustar-nos com vossas ameaças, como se pudesse haver maiores tormentos do que os que a vossa horrível desumanidade fez sofrer a Eleazar e que nos prepara também para nós? Se não há torturas que a piedade desse santo ancião não o tenha feito sofrer, com constância, nossa juventude nos torna ainda mais capazes de as desprezar e de as sofrer, para obtermos, imitando-o, uma coroa semelhante à sua. Experimentai então, se puderdes, fazer também morrer nossas almas, porque elas querem permanecer fiéis a Deus, e não vos vanglorieis da espe¬rança de poder abater nossa coragem pelo que sofrerão nossos corpos, pois que nossa paciência, unida a esses sofrimentos, nos fará vitoriosos desse combate? Ao passo que a justiça de Deus vos castigará com tormentos eternos, por ter tão injustamente manchado vossas mãos no nosso sangue".

CAPÍTULO 4
MARTÍRIO DO PRIMEIRO DOS SETE IRMÃOS.

Uma resposta tão corajosa e tão generosa pôs esse bárbaro príncipe em desespe¬rado furor, porque ele não considerava somente aqueles sete irmãos como desobe-dientes, mas como ingratos, que desprezavam os favores que lhes queria fazer.
Os algozes para obedecer-lhe, começaram por arrancar as vestes do mais velho dos irmãos, amarraram-lhe as mãos às costas e o vergastaram com açoites, até rasgarem-lhe a carne. Estenderam-no depois na roda, onde se quebraram todas as partes de seu corpo; então ele dirigiu a palavra a Antíoco e disse: "Oh! crudelíssimo dentre todos os tiranos, que vos fiz para me pordes neste estado? Sou talvez um assassino ou violei com algum outro crime a lei de Deus? Não é justamente o contrário, porque eu a quero guardar, que me tratais deste modo?" Os guardas do príncipe então disseram-lhe: "Prometei comer esta carne e livrar-vos-eis de todos estes sofrimentos". Ele, porém, respondeu: "Ministros da iniqüidade, por mais temível que seja esta roda, jamais o será para me fazer mudar de resolução. Cortai todos os meus membros em pedacinhos, consumi toda a minha carne no fogo, quebrai todos os meus ossos, eu vos mostrarei que não há tormento contra os quais os verdadeiros filhos dos judeus não saiam vencedores, por sua constância e por sua fé". Enquanto ele assim falava os car¬rascos acenderam o fogo sob aquela terrível roda, banhada de sangue, que jorra¬va de seu corpo; via-se cair pelos raios a carne em pedaços, os ossos estavam todos quebrados e moidos. Mas no meio de tantos e tão horríveis sofrimentos esse generoso israelita, digno sucessor de Aarão, não soltou nem um suspiro. Como se o fogo não agisse sobre seu corpo, senão para torná-lo incorruptível e impassível, sua alma permanecia sempre numa atitude tão elevada, acima dos seus sofrimentos, que ele disse aos seus irmãos: "Agora não nos deve restar ne¬nhum pensamento do presente século. Chegou a hora de mostrarmos a grande¬za de alma que a torna vitoriosa sobre todos os sentimentos da natureza. Deve¬mos responder com nossa coragem à honra que temos de ser incluídos nessa milícia santa, que nos obriga a dar nossa vida com alegria para cantarmos a glória de Deus. Ele é bom, é Todo-poderoso: toda nossa nação deve-lhe a nossa fidelidade; não há castigos que esse tirano não deva esperar de sua justiça". Morreu, depois de ter dito estas palavras, e sua coragem invencível encheu de espanto a todos os que foram testemunhas do seu martírio.

CAPÍTULO 5
MARTÍRIO DO SEGUNDO DOS SETE IRMÃOS.

Os guardas de Antíoco trouxeram depois o segundo dos sete irmãos; puseram-lhe nas mãos uma espécie de manopla de ferro, cujos dedos terminavam, em pontas afiadas, ferindo as unhas; amarraram-no em seguida a um instrumento de suplício, chamado catapulta. Depois perguntaram-lhe, se para evitar outros tor-mentos ele estava disposto a obedecer às ordens do rei. Vendo, porém, que ele continuava firme em sua deliberação, de não obedecer, os carrascos arrancaram-lhe a pele da cabeça e rasgaram-lhe a carne, até o ventre com unhas de ferro. Mas em vez de se queixar, naquelas dores cruéis, ele as suportou com tanta paciência que ainda disse a Antíoco: "Pode haver gênero de morte que não seja suave quan¬do se sofre, para não renunciar à religião de nossos antepassados? Não sois mais atormentado do que eu, vendo que meu respeito e meu amor pela lei de Deus me dá a força de triunfar, pela minha constância sobre a vossa espantosa crueldade? O prazer de cumprir o meu dever abranda todos os meus tormentos. Mas os horrí¬veis castigos com que Deus ameaça a vossa impiedade não poderiam não tormentar vossa alma e nada será capaz de vos livrar dos raios de sua cólera".

CAPÍTULO 6
MARTÍRIO DO TERCEIRO DOS SETE IRMÃOS.

Depois que este generoso mártir terminou a vida como acabamos de narrar, trouxeram o terceiro dos sete irmãos. Exortaram-no a se livrar da morte pela obediência às ordens do rei: ele, porém, respondeu: "Ignorais que aqueles que acabam de morrer e eu, temos nossa origem do mesmo pai e da mesma mãe, e que recebemos as mesmas instruções? julgais que sendo do mesmo sangue eu não tenha a mesma coragem?" Palavras tão corajosas foram intoleráveis a Antíoco, e acenderam ainda mais o fogo de sua cólera. Mandou então amarrá-lo de pés e mãos a um instrumento de tortura, feito em círculo. Esse instrumento quebrou todas as juntas que uniam cada uma das partes de seu corpo, estropiou as ou¬tras, mas nada foi capaz de fazê-lo mudar de idéia. Arrancaram-lhe a pele com unhas de ferro e colocaram-no sobre a roda. Quando esse invencível mártir viu sua carne feita em pedaços, suas entranhas rasgadas, seu sangue correr de todos os lados e estando prestes a deixar a vida, ele disse ao cruel príncipe: "Impiedoso tirano, é para observar a lei de Deus e prestar a honra que eu devo ao seu sobe¬rano poder, que eu sofro todos estes tormentos. Eles, porém, são passageiros, ao passo que os que vós sofrereis, como castigo de vossa impiedade e de vossos sacrilégios homicidas, serão eternos".

CAPÍTULO 7
MARTÍRIO DO QUARTO DOS SETE IRMÃOS.

As palavras desse glorioso mártir foram seguidas de sua morte, e logo trouxeram o quarto dos sete irmãos. Exortavam-no a não imitar a loucura que tinha custado a vida aos precedentes; ele, porém, respondeu: "Por mais ardente que seja o fogo que acendereis para me queimar, ele não me fará medo. Sei que nada mais se pode acrescentar à felicidade de que agora gozam meus irmãos, bem como à desgraça que experimentará um dia esse cruel príncipe, e nada desejo senão morrer como eles, para gozar como eles de uma vida que não terá fim. Por isso", acrescentou, falando a Antioco, "inventai novos suplícios a fim de ver se eu não sou um verdadei¬ro irmão dos que fizestes morrer no meio de tantos e tão horríveis tormentos". O rei, levado pelo furor, ouvindo-o falar daquele modo, ordenou que lhe cortassem a lín¬gua e então ele disse: "Ainda que me priveis do órgão da palavra, Deus não deixará de ouvir a minha voz. Podeis cortar minha língua e eu vo-la apresento para ser cortada, mas não tendes poder sobre meu espírito. Verei com prazer cortarem todas as outras partes de meu corpo para testemunhar com esse sacrifício, que com ele dou a Deus uma prova do meu amor; mas Ele vos castigará bem depressa por cortardes uma língua que eu queria apenas empregar para cantar as suas glórias e seus louvo¬res". Cortaram em seguida a língua e ele expirou no meio dos tormentos.

CAPÍTULO 8
MARTÍRIO DO QUINTO DOS SETE IRMÃOS.

O quinto dos sete irmãos veio então por si mesmo apresentar-se e falou assim a Antioco: "Eu vim sem esperar que me obriguem, a me oferecer, para sofrer por minha religião o mesmo tormento que meus irmãos, a fim de que, multiplicando vossos crimes, a mão de Deus pese ainda mais sobre vós, para vos fazer sentir os terríveis efeitos que deveis esperar de sua justiça. Inimigo dos homens, inimigo da virtude, que fizemos para vos obrigar a nos tratar deste modo? É verdade que professamos adorar o Criador de todas as coisas e de observar suas santas leis; mas é isso motivo para nos fazer morrer no meio dos tormentos e nisso não somos nós, ao invés, dignos de elo¬gio?" Quando ele assim falava os carrascos ataram-no e o amarraram pelos joelhos à catapulta com cadeias de ferro, quebrara-lhe todos os ossos da espinha, com cunhas, que enfiavam com força por baixo das cadeias de ferro, e o rolaram na orla da máqui¬na, que estava cheia de pontas de ferro, em forma de escorpiões. Mas, embora o corpo do mártir estivesse crivado de feridas e ele suportasse uma dor imensa, seu espírito estava sempre livre e ele disse a Antioco: "Mais esses tormentos são cruéis, mais vós me obrigais contra vossa intenção pelo meio que eles me dão, a testemunhar que nada é capaz de me fazer violar suas santas leis".

CAPÍTULO 9
MARTÍRIO DO SEXTO DOS SETE IRMÃOS.

Depois da morte do quinto dos irmãos, trouxeram o sexto, que era muito jovem. Antioco perguntou-lhe se ele não queria salvar a vida, comendo a carne que ele havia ordenado comer e ele respondeu: "É verdade que quanto à idade eu sou mais moço que meus irmãos, mas não tenho menor firmeza e coragem do que eles. Como fomos educados juntos e instruídos nos mesmos sentimen¬tos, eu os conservarei como eles, até à morte. Por isso, se resolvestes fazer ator¬mentar-me porque eu não quero comer dessas iguarias, que nossa lei proíbe, não deveis perder tempo". Estenderam-no então sobre a roda, para queimá-lo a fogo lento, furaram-lhe todas as partes do corpo até às entranhas, com peque¬nas pontas de ferro, bem agudas, que haviam feito ficar rubras no fogo. Ele permaneceu intrépido nesse combate e disse, dirigindo-se a Antioco: "Feliz e glorioso tormento que, sobre tantos irmãos não lhe puderam vencer a constân¬cia, porque todos eles o sofreram pela própria religião e uma consciência pura acompanhada pelas boas obras, é invencível. Inimigo dos servos de Deus, estou pronto a morrer com meus irmãos e a ser como eles para vossa alma criminosa, um objeto de horror que a atormentará sem cessar. Por mais jovens que sejamos, triunfaremos de vossa tirania, sem que esteja em vosso poder fazer-nos experi¬mentar essa comida, de que não poderia eu me servir sem sacrilégio. Nós só encontramos frescura no fogo e alegria nos tormentos, porque desejando execu¬tar, não as ordens de um tirano, mas as de Deus, nossa resolução é inquebrantá-vel". Mal havia acabado de dizer estas palavras, lançaram-no a uma caldeira, onde terminou sua vida mortal para passar à eterna.

CAPÍTULO 10
MARTÍRIO DO ÚLTIMO DOS SETE IRMÃOS.

Trouxeram em seguida o mais jovem e o último dos sete irmãos. Antioco não pôde deixar de sentir dó: estavam para amarrá-lo, quando ele o chamou e procu¬rou persuadi-lo a obedecer-lhe: "Vistes de que modo vossos irmãos terminaram a vida no meio dos tormentos. Não imiteis seu exemplo. Tornai-vos, ao contrário, digno de meu afeto e das graças que estou disposto a fazer-vos e a vos honrar". Depois de ter dito estas palavras, mandou buscar sua mãe e disse-lhe quanto a lastimava por lhe haverem arrebatado tantos filhos. Exortou-a a fazer o possível para salvar o único que lhe restava, persuadindo-o a fazer o que ele desejava. A generosa mulher, em vez de seguir essa ordem, fortaleceu ainda mais o filho em sua resolução, falando-lhe em hebreu; então ele disse aos guardas: "Desamarrai-me, a fim de que eu possa dizer ao rei, na presença daqueles em quem mais ele confia, coisas que eu lhe tendo a dizer". Desataram-no imediatamente com gran¬de alegria e ele correu ao lugar onde o fogo estava aceso para queimá-lo, excla¬mando: "Oh! cruel e ímpio, o mais cruel e o mais ímpio de todos os tiranos, não foi Deus quem vos pôs a coroa na cabeça? E sentis prazer em fazer morrer seus servos nos mais horríveis tormentos, porque eles lhe querem ser fiéis? Sua justiça vos pedirá contas de seu sangue e vós vos queimareis num fogo que não será somente muito mais ardente do que o que a vossa crueldade fez acender e vossos tormen¬tos serão sem fim. O furor dos animais ferozes não é comparável ao vosso! Eles pelo menos poupam seu semelhante. Vós, como homem, sentis prazer em fazer sofrer homens, o que não podemos pensar, sem horror. Mas, morrendo com cons¬tância invencível, eles satisfazem plenamente ao que devem a Deus, ao passo que, por maiores que sejam as penas que sofrereis na outra vida, não poderiam expiar tão grande crime, como o de fazerdes morrer pela mais detestável de todas as injustiças, pessoas, não somente inocentes, mas muito justas. Eis-me pronto a se¬gui-los. Quero fazer ver que sendo seu irmão, não degenero de sua virtude". Di¬zendo estas palavras, lançou-se ao fogo e morreu.

CAPÍTULO 11
DE QUE MANEIRA ESSES SETE IRMÃOS HAVIAM SE EXORTADO RECIPROCAMENTE NO MARTÍRIO.

Que pode melhor provar que a razão, a qual inspira sentimentos tão virtuosos e tão generosos e triunfa sobre as paixões, do que a constância com que esses sete irmãos desprezam até a morte, os mais horríveis de todos os tormentos, tornando-se vencedores quando outros, vencidos pela fraqueza, comiam da car¬ne de animais imundos, oferecidos em sacrifícios detestáveis? Podemos então assaz agradecer a Deus ter-nos dado essa razão que nos faz triunfar sobre as paixões e as dores. Foi pela força da razão que esses sete irmãos resistiram ao poder do fogo e foram como outras tantas torres, solidamente erguidas à beira-mar, que desprezam o esforço e o ímpeto das ondas, dos ventos e das vagas. Para se exortarem uns aos outros à firmeza em sua resolução, um dizia: "O nas¬cimento nos uniu, não nos separemos na morte, mas demos todos juntos nossa vida pela defesa de nossa religião. Imitemos os três moços que caminharam sem temor sobre as chamas ardentes na fornalha de Babilônia e não mostremos me¬nos zelo do que eles pela observância da lei de Deus". Um outro dizia: "Cora¬gem, meus irmãos!" Outro: "Devemos permanecer firmes até o último suspiro". Um outro dizia: "Lembremo-nos de que somos descendentes de Abraão, que, para mostrar a Deus sua obediência, ofereceu-lhe Isaque, seu filho, em sacrifí¬cio". Assim, todos animavam-se nesse glorioso combate, com uma generosidade incomparável e fortalecendo-se cada vez mais, diziam: "Oferecemos de todo o nosso coração a Deus a vida que dEle recebemos, para empregá-la em defender suas santas leis. Não tememos aqueles que só podem matar o corpo, porque sabemos que tormentos eternos esperam num outro mundo os que não guar¬dam seus mandamentos e nos devemos armar de uma firme resolução de obe¬decer à sua vontade, a fim de que, depois de nossa morte, Abraão, Isaque e Jacó, e nossos outros santos predecessores, nos recebam com alegria para participar¬mos de sua glória".
Quando um dos irmãos era atormentado, os outros que ainda viviam diziam-lhe: "Não envergonhes, irmão, nem a nós, nem aos que acabaram de expirar. Não sabes que nada é mais agradável a Deus, nem lhe deve ser mais forte, do que esse laço de amor com que sua sabedoria infinita uniu os irmãos? Eles quis que eles devessem uma parte de seu ser aos pais; que as mães os concebessem em seu seio e eles aí fossem formados, aí ficassem durante o mesmo tempo e fossem alimenta¬dos com o mesmo e gerados da mesma maneira, recebendo a alma e, depois de terem visto a luz do dia, tirassem o alimento da mesma fonte, sugando o mesmo leite, fossem tomado nos mesmos braços, criados, educados e instruídos da mes¬ma maneira na lei de Deus e nas santas práticas de nossa religião".
Assim, esses sete irmãos, numa mesma e estreita união, exortavam-se uns aos outros, porque a maneira como tinham sido educados acrescentava ainda a pie¬dade ao seu afeto fraterno e a natureza era fortalecida pela virtude, sem que a magnitude dos tormentos dos que os haviam precedido na morte lhes fosse capaz de causar horror.


CAPÍTULO 12
ELOGIOS DOS SETE IRMÃOS.

Esses admiráveis irmãos, exortando-se assim uns aos outros, a sofrer tantos tormentos, mostraram que não somente não os desprezavam, mas sua fé os tornava vencedores sobre o afeto fraterno. Mais elevados por sua resolução, que os reis por seu poderio, e mais livres sob os ferros do que os príncipes mais temíveis sobre o trono, nenhum deles mostrou o menor temor, nem hesitou um minuto sequer em se expor à morte: mas considerando o martírio como um caminho que leva à imortalidade, para lá correram e com alegria. Do mesmo modo que a alma fez mover as mãos e os pés, assim estes sete irmãos, que eram como se animados por uma só alma, impelidos por ela, procuraram uma morte que os tornou dignos, por sua piedade, de viver para sempre no céu. Feliz o número sete que se encontra nesses irmãos. Não tendes uma santa relação com os sete dias que formam o ciclo da semana, empregado por Deus para a criação do mundo e para descansar depois de ter realizado tão grande obra? Não pode¬ríamos, sem estremecer, ouvir falar de vossos sofrimentos; e vós, bem-aventura¬dos mártires, não tendes somente, sem vos assustar, ouvido as ameaças de um príncipe enfurecido; não tendes somente visto sem temor o fogo, as rodas, as unhas de ferro e todos os outros tormentos que vos estavam preparados; mas os sofrestes sem vos comoverdes e mostrastes que o poder que eles tinham sobre vossos corpos era inferior à constância tão maravilhosa como a vossa.

CAPÍTULO 13
ELOGIO DA MÃE DESSES ADMIRÁVEIS MÁRTIRES E DE COMO ELA OS FORTALECIA NA RESOLUÇÃO DE DAR A VIDA PARA A DEFESA DA LEI DE DEUS.

Devemos talvez nos admirar de que tão firme resolução tenha triunfado sobre os tormentos, no sexo mais forte, quando vemos que admirável mulher, de quem os sete irmãos tinham recebido a vida, sofreu sozinha tanto quanto todos eles juntos? Podemos talvez duvidar de que seu amor materno não os tenha feito sentir todas as penas, quando vemos a dor, mesmo em animais, como as abe¬lhas, embora naturalmente mansas, servem-se de seu ferrão, como de uma espada, para repelir os moscardos que querem entrar em suas colmeias e os perse¬guem até à morte, para defender os filhos? Embora essa generosa mãe, de que falamos, tivesse sete filhos, ela não amava menos a nenhum deles, como Abraão amava Isaque, seu único filho, e, entretanto, na necessidade em que se encontra¬vam, de se expor à morte para observar a lei de Deus ou violá-la, para salvar a vida, ela sentiu-se arrebatada, por ver que eles preferiam uma felicidade eterna a sofrimentos passageiros. Quem não sabe que por mais amor que os pais sintam por seus filhos, nos quais eles de algum modo imprimiram o caráter de sua alma e de sua semelhança, o das mães o sobrepujava ainda, porque jamais a teve como a destes sete irmãos. Ela não os tinha somente como os outros trazido em seu seio e tido por todos eles tantos cuidados e tantas penas, mas os tinha edu¬cado a todos no temor de Deus e não tendo outro desejo que sua salvação, ela os amava tanto mais, quanto via que lhes eram muito fiéis, pois eram todos sensa¬tos, virtuosos, generosos e tão unidos e tinham tão grande respeito por ela, que cumpriram até à morte as instruções que lhes havia dado. Mas, por mais extraor¬dinário que fosse o amor que ela lhes tinha e embora suas entranhas fossem rasgadas vendo-os sofrer tantos tormentos, nada pôde abalar sua admirável for¬taleza. A piedade triunfou em seu coração, sobre os sentimentos da natureza, e ela acompanhou-os todos à morte; sem demonstrar jamais a menor fraqueza, ela viu o fogo devorar-lhes a carne, os dedos das mãos e dos pés, espalhados pelo chão e a pele arrancada da cabeça e da maior parte de seus corpos. Santa mu¬lher, que outra mãe como vós pode dizer ter experimentado na pessoa de seus filhos e as dores mais cruéis do mundo e de todos os entes que deu no mundo, nem um só deu mostras de fraqueza em sua piedade: Vistes morrer o primeiro, sem que vossa constância se abalasse; vistes o segundo expirar, sem mostrar fraqueza ou desalento; vistes com os olhos enxutos tudo o que sofreram os de¬mais, sua carne grelhada, suas mãos e cabeça decepadas, o resto de seus corpos amontoados uns sobre os outros. Considerastes todos os tormentos como pro¬vas de sua virtude e nenhuma harmonia é tão agradável aos que a música arreba¬ta, como era o concerto de suas vozes unidas à vossa, quando eles suportavam tantos tormentos. Aquela grande alma tinha visto de um lado a morte de seus filhos, inevitável, se eles continuassem em sua resolução; e do outro, sua vida garantida, se obedecessem às ordens do rei, e sentia por eles a maior ternura de que é capaz um coração materno; mais ela os amava, menos desejava o prolon¬gamento de sua vida, por um pouco de tempo, que lhes teria, ao invés, dado a morte para sempre; mostrou que era uma verdadeira filha de Abraão, preferindo com coragem invencível, Deus a todas as coisas. Oh! mãe que mantivestes a honra das nossas santas leis e a santidade de nossa religião, que trouxestes ao vosso lado estes generosos combatentes, que tão corajosamente as defenderam, devemos comparar-vos talvez, à arca, pois do mesmo modo que no dilúvio uni¬versal ela salvou do furor das ondas tudo o que restava da raça dos homens, assim vós levastes àqueles, que num dilúvio de tormentos, saíram, vencedores da crueldade dos carrascos e os fortificastes com vossa admirável constância e vossa heróica piedade, poderemos duvidar de que uma resolução santamente tomada não domine os sentidos, quando vemos a mãe, já idosa, permanecer firme no meio da mais terrível tempestade que possa agitar um coração, vendo sete de seus filhos morrerem diante de seus olhos, da maneira mais cruel do mundo? Que homens jamais demonstraram tão grande coragem? O furor dos leões aos quais Daniel foi exposto e o ardor da fornalha onde Misael e seus companheiros foram atirados, tinham algo de mais terrível do que o fogo do amor que devora¬va as entranhas dessa mãe, pela dor de ver arrancar de seus braços todos os filhos, para mandá-los aos mais atrozes suplícios? Mas, foi nesse combate que a razão fez triunfar sua virtude sobre os sentimentos mais vivos da natureza. Do contrário, como poderia ser, que uma mulher e mãe, não tivesse dito de si mes¬ma: "Mãe infeliz, a mais infeliz que se possa imaginar, dei ao mundo sete filhos só para hoje vê-los arrebatados de meus braços, sem que me reste nem mesmo um só deles? Foi em vão que eu sofri a dor de tantos partos, que eu criei todos esses filhos com meu leite e os eduquei com tanto cuidado? Não somente não vos verei mais, meus caros filhos, mas não verei nem mesmo vossos filhos e perderei assim o doce nome de mãe, depois de o ter possuído com tanta alegria, pela consolação que vós mesmos me proporcionáveis por vossa virtude que ne¬nhuma outra jamais foi mais feliz. Na minha idade estou sozinha, consumida pela dor, sem que der tantos filhos que tive, haja pelo menos um de quem eu possa receber a honra da sepultura."
Essa santa mulher estava muito longe de ter pensamentos tão humanos e tão carnais. Ela não se contentou em não afastar seus filhos de sua resolução, de sofrer a mesma morte mas também de não queixar-se nem lamentá-los, depois de terem morrido. Como se seu coração fosse de bronze, ela os incitava e os exortava a dar sem temor uma vida mortal para conquistar uma imortal. Generosa mãe, que num sexo frágil, como um soldado envelhecido nas armas, demonstrastes tanta firmeza, que saístes vencedora por vossa constância do furor de um tirano e demonstrastes nas vossas palavras e nas vossas ações mais coragem do que homens, os mais valentes, nunca poderemos assaz admirar a maneira como falastes aos vossos fi¬lhos, quando depois de ter sido aprisionado e levada com eles, vistes o santo e venerável ancião Eleazar atormentado e lhes dissestes então: "Meus caros filhos, jamais combate foi mais glorioso que aqueles que estais empreendendo. Trata-se de defender a santidade de nossa religião e que vergonha para vós, no vigor da idade, temer sofrer por ela dores que um ancião sofre com tanta firmeza. Lembrai-vos de que recebestes de Deus, criador do universo, a vida que lhe ides oferecer. Imaginai com que solicitude Abraão, nosso pai, ofereceu-lhe Isaque em sacrifício, embora ele o considerasse com olhe devendo dar um número indefinido de des¬cendentes. Pensai com que coragem Isaque em vez de se espantar, por ver armada a mão de seu pai, contra ele, apresentou-se para ser imolado. Tende presente aos vossos olhos a constância de Daniel, quando o expuseram aos leões, e a de Ananias, de Azarias e de Misael, quando os lançaram na fornalha de Babilônia. Pois que tendes, meus filhos, a mesma fé, mostrai a mesma resolução. Como tendo diante dos olhos tais objetos, vossa piedade poderia não sair vitoriosa dos tormentos que vos são preparados?" Tais as palavras dessa mulher forte que ninguém jamais po¬deria assaz louvar; e elas fizeram tal impressão no espírito desses sete irmãos, tão dignos de tê-la por mãe, que, tendo todos morrido parta não faltar ao que deviam a Deus, vivem agora com ele, na companhia de Abraão, de Isaque, de jacó e dos outros patriarcas.


CAPÍTULO 14
MARTÍRIO DA MÃE DOS MACABEUS. SEU ELOGIO E DE SEUS FILHOS, BEM COMO DE ELEAZAR.

Depois que os sete irmãos terminaram a vida da maneira como descrevi, leva¬ram também a Antíoco a santa mãe. Atiraram-na ao fogo e aquela mulher forte, bom como seus filhos, teve a glória de triunfar sobre o tirano. Ela foi como um soberano edifício, de tal modo sustentado por eles, como por outras tantas colu¬nas, que nenhum tormento jamais foi capaz de abalar. Ela agora goza no céu da recompensa de seus sofrimentos e de sua fé e resplandece com seus filhos, de uma luz mais viva do que a da lua e das estrelas. Devemos prestar-lhes a honra, que lhes é devida, por terem sustentado combates, que causam horror aos mes¬mos algozes que os atormentaram, com tão espantosa crueldade, tornando-os sempre presentes aos olhos da posteridade, por esta história, que merecia ser gravada sobre o bronze de um magnífico túmulo, a fim de que nossa nação jamais viesse a esquecê-los. ilustre ancião, ilustres irmãos, resististes a todos os esforços desse cruel príncipe, que queria abolir nossas santas leis e com os olhos em Deus vós lhe resististes até à morte, no meio dos maiores tormentos. Jamais combate foi mais divino, pois só foi empreendido pela glória de Deus e jamais a virtude, provada pela paciência, triunfou com maior brilho. Eleazar, por primei¬ro, entrou na arena. Os sete irmãos seguiram-no. Sua mãe palmilhou o mesmo caminho. O tirano fez tudo o que o furor mais implacável lhe poderia inspirar; o mundo foi espectador do combate, a piedade saiu vitoriosa e os que a tinham tão generosamente defendido, foram coroados. Como poderíamos não admirá-los e não ficarmos comovidos pelos seus sofrimentos, pois, o mesmo Antíoco e todos os seus ficaram atônitos e fora de si? O sangue desses admiráveis mártires aplacou a cólera de Deus, salvou o povo e deu-lhes a paz, quando havia mesmo probabilidade de esperá-lo. O príncipe concebeu tal estima por sua coragem e perseverança, que os propôs como exemplo aos seus soldados e fortificou suas tropas com um grande número de judeus, que o serviram valentemente, dando-lhe mesmo muitas vitórias.
Israelitas, raça de Abraão, jamais abandoneis vossas santas leis, mas observai-as mui religiosamente e reconhecei que a razão acompanhada pela piedade do¬mina as paixões. Quanto a Antíoco, cruel príncipe, foi castigado neste mundo e o é ainda agora no outro. Vendo que lhe era impossível obrigar os judeus a renunciar à sua religião, ele saiu de Jerusalém para ir fazer guerra na Peréia e lá morreu miseravelmente.
É de mister terminar: creio, não poderia fazê-lo de modo melhor, do que referindo as palavras daquela admirável mãe a seus filhos: "Meus filhos, passei o tempo de minha virgindade com todo o pudor da virtude que se pode exigir de uma donzela e minha juventude, no casamento, com toda a honestidade que deve ter uma mãe de família. Quando começáveis a progredir nos anos, perdestes vosso pai. Ele tinha vivido santamente e suportado com paciência privar-se du¬rante alguns anos da consolação de ter filhos. Ele vos instruiu nas leis e nos pro¬fetas, falou-vos sobre o assassínio de Abel, por Caim, seu irmão, sobre o sacrifício de Isaque, a prisão de José, o zelo de Finéias; disse-vos da fossa dos leões onde haviam atirado a Daniel, da fornalha de babilônia, onde Ananias, Azarias e Misael foram lançados; citou-vos estas palavras de Isaías: Quando estiverdes no meio do fogo não experimentareis o ardor de suas chamas; este Salmo de Davi: Os sofrimen¬tos são a herança dos justos; estas, de Salomão: O Senhor é como a árvore da vida para todos os que fazem a sua vontade. Estas, de Ezequiel: Ele reanimara um dia seus ossos dissecados; estas, de um cântico de Moisés: Eu sou o Senhor; eu mato e eu vivifico. Meus filhos, esse Deus Todo-poderoso, Eterno, que é a vossa vida, Ele somente pode prolongar vossos dias na eternidade."
Quantas amarguras nesta vida! Como esses sete irmãos, ao contrário, encon¬traram consolação e doçura quando os lançaram nas caldeiras de óleo fervente, quando lhes arrancaram os olhos, cortaram a língua e exalaram o último suspiro no meio de todos os tormentos que a crueldade mais desumana poderia inven¬tar. A justiça de Deus faz agora sofrer o castigo a esse malvado soberano, e as almas puras desses verdadeiros filhos de Abraão e de sua bem-aventurada mãe, como recompensa de suas penas e sofrimentos, recebem no céu com os santos antepassados coroas imortais, das mãos de Deus, ao qual seja dada honra e gló¬ria por todos os séculos dos séculos.

 
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